16 de fevereiro de 2014

Nothing is perfect!


   Quanto mais quente melhor ... nothing is perfect.


No meu mundo da infância , o universo parecia ter apenas dois   “”pontos””  cardeais: direita e esquerda. Era tudo tão pequeno, tão de interior mineiro que esse sentido de lateralidade se aprendia antes mesmo da idade da razão e, daí para frente, mesmo andando sozinhos, estávamos no prumo e tudo dava certo.  

            Tudo era perfeito!

Os pontos de referência eram poucos, mas da maior importância! E para seguí-los,  bastava eu atravessar o portão da minha casa, dar uma virada de corpo para um, ou outro lado e caminhar para a frente.  Não tinha mesmo como perder o rumo.

A esquerda, até q não me agradava tanto, era a saída de Rio Branco. Mas a direita??!  Engraçado ... pode ser pura coincidência, mas na geografia da minha cidade, ela sempre teve muito mais poder. A começar, que na época, esse era o lado do mais significativo destino de todos: o destino da fé. A Igreja matriz São João Batista se destacava no topo da praça e todos os programas giravam em torno dela.

Para mim, então, vivendo na quietude da chácara, chegar à Matriz nos fins de semana significava chegar ao mundo inteiro!  Enquanto a família assistia à missa das 8hs, eu encontrava todas as crianças e ficava brincando no balaustre esperando a hora do programa que eu mais gostava; a matinêe no Cine Brasil. Eu adorava!

            E nada me faz esquecer o filme Quanto mais Quente Melhor!

          Vestida de amarelo de broderi com lacinho de gorgurão na frente;  sapato pretinho de verniz;  conjunto de ban-lon herdado da prima Cristina; grapette e saquinho de pipoca,  lá nos sentamos, mamãe e eu, na primeira fila.

          Risos, nesse filme, foi o que não faltou! Quase ainda escuto nossas gargalhadas com a confusão do Jack Lemmon que, fantasiado de mulher para conseguir emprego, acaba vítima da paixão de um milionário que tudo faz para se casar com ele. Promete rios e fundos, faz planos para o casamento ... para a lua de mel ... para os filhos que terão...

Aflito, Lemmon tenta ainda explicar de qualquer jeito, que não pode se casar com ele, que não pode aceitar nada disto e mais do que tudo,  que não pode messssmo, porque é homem!!.

Embevecido de paixão, o apaixonado não se espanta e responde com a maior naturalidade: nothings is perfect ... e continua com seus planos!!! 

Saímos do cinema e seguimos rindo pelo caminho de casa. E até hoje,  percebo, o Quanto Mais Quente Melhor não me saiu de cena!!

Todas as vezes, enquanto pude, que reclamei da vida para a minha mãe ela me fazia voltar ao filme, por menos cômico que fosse meu problema. Eu dizia: mas como isto foi acontecer, mamãe? Eu pensei em tudo com detalhes ...,  eu programei da melhor forma... eu procurei o melhor script para que fosse completamente um happy end ... Ela, bem sábia e experiente de tantos anos vividos na base dos ups and downs me olhava, fazia um compreensivo balançar de cabeça e me consolava da forma mais alegre: 

Elzinha, lembre-se para sempre: nothing is perfect!!!


Les grandes et pures affections ont cela de beau, qu'après le bonheur de les avoir éprouvées, il reste le bonheur de s'en souvenir.”  Alexandre Dumas!!!


Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição 138, de 6.7.2022.
Publicada no blog "Maria Cobogó" em 16.8.2021 - https://mariacobogo.com.br/nothing-is-perfect/
Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 90, de novembro de 2018. https://www.anenet.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Jornal_ANE_90_ANE_impressao.pdf
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4 de maio de 2013

O Café de Fila





Eurico, lembra do dia em que estávamos aqui em casa quando a Elvira telefonou toda entusiasmada e disse:

-"Elza, a Globo abriu um concurso para que as pessoas possam escrever sobre uma receita que marcou nossa vida. E tem que ser uma receita mineira. Veja só! Inscreva-se lá, com a do Café de Fila da Tia Pequita. Era tão gostoso e foi tão importante para nós!" 

Lembra disto, Eurico?

Na mesma hora corri ao computador e abri o site. Fiquei super feliz quando percebi que eu não precisaria enviar a receita. Era tudo que eu não tinha!

Nunca pensamos, dentro daquele interior mineiro, em aprender a fazer o inesquecível café com chocolate, creme de leite fresquinho e raspinhas de canela ralada. Também ... quando imaginaríamos, naquela idade de infância, que tudo de bom que tínhamos poderia acabar ou que, um dia, a querida tia fosse embora para sempre e,  com ela, a deliciosa receita do Café de Fila?

A Globo acertou em cheio: o importante mesmo não era um papel de receita e, sim, a emoção e tudo o mais que ficou gravado, em família, ao redor de um prato.

Afinal, foi no meio das xícaras de porcelana branquinhas e no caminhar daquela fila que iniciamos  o ritmo de vida que hoje se faz história.

E o nosso café começava na Padaria do Acácio que ficava ali, de frente para o jardim da 28 de Setembro. Já entrávamos correndo para aquele balcão meio de madeira, meio de vidro e velho,  no centro da padaria. Era uma geladeira quadrada, baixa, com um motor super barulhento e várias tampas redondas. De tantas incursões naquela máquina friinha já sabíamos de cor o rumo  dos deliciosos picolés que queríamos. O preferido era o de coco queimado - e redondo!

Pães de sal fresquinhos, sequilhos, doce de mamão verde ralado e as brevidades que a tia Pequita encomendava faziam sempre parte da nossa conta. Conta que ficava pendurada para o final do mês, em respeito à confiança de anos de vizinhança. 

Assim, de embrulhinhos em embrulhinhos de papel de pão amarrados em barbantes, chegávamos ao Sobrado na hora do café e nada de pressa.
Nem podia. A hierarquia, herdada da rígida educação dos antigos, já fazia parte da cerimônia em todos os sentidos. 
Primeiro, os adultos ocupavam a mesa principal – a de toalha de linho branco. Depois, os "primos-visita", que vinham do Rio e que, a nós, encantavam tanto que não importavam nem os nomes. Todos eram bem vindos, mesmo sendo colocados, lógico, à nossa frente.
No final,  bem depois de todos,  chegava a nossa vez - a das crianças ”de casa“.

Você, Eurico, menino sapeca, feliz e educado, estava sempre ali, na retaguarda da fila para guardar nossos cantinhos e ceder, a todos, a sua vez.

E, agora, Eurico, porquê mudou os hábitos?
Porque fugiu às antigas regras?
Porquê não esperou a sua vez?
Porquê furou a fila, nos deixou sem rumo e sem o café?

Beijos de quem vive com saudades de você,

Elza


Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 95, de junho/julho de 2019https://anenet.com.br/wp-content/uploads/2019/05/Jornal_da_ANE_95_versao_eletronica.pdf

Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição n. 134. 8.5.2022.

12 de outubro de 2011

A Mudança


A mudança


A cada crônica que escrevo sobre o Rio Branco percebo que saí dele faz muito tempo, mas que ele não saiu de mim jamais!

Eu penso que ainda moro lá na chácara da Mello Barreto, que vou acordar cedinho amanhã com o barulho dos bichos e abrirei as janelas para ver o terreiro coalhado de mangas ubá fresquinhas.

Eu não consigo deixar de me ver menina, bem sapeca e feliz, correndo a disputar velocidade com o vento como que, se assim, fosse impossível deixá-lo passar por mim e virar tudo lembranças.

Na verdade, eu preciso agora é de recordar o dia em que a mamãe me contou que mudaríamos. Nós voltávamos da missa, programa nosso de todo domingo, quando ela tocou no assunto com uma peculiar cerimônia, de mãe mineira, que não sabia muito bem como aquela notícia ia ser aceita por mim: “...Elzinha, sabia que vamos nos mudar para a Capital do Brasil?? Para Brasília?

Na hora, preocupada com a surpresa do meu silêncio, ela continuou ilustrando a notícia ... a cidade é linda, acabou de ser construída, fica no meio do Brasil, você terá uma escola novinha,
muitos amigos para fazer e, eu prometo: passaremos nossas férias aqui, no sobrado.

Com meus pensamentos ainda de criança, eu não tive dúvida de que a mudança seria uma imensa caixa, com todo o meu Rio Branco embrulhado dentro. Poderia abrí-la, a qualquer momento.

Nada me faria falta! Nada ficaria para trás!!

Levaria tudo e todos que faziam parte do meu universo e, até mesmo, aquele clima quentinho e de brisa fresca, típico da serra da Piedade, que percorria a casa, sempre no final do dia.

Afinal, eu jamais imaginaria abandonar o que quer fosse e que me fazia tão absolutamente feliz!
Eu jamais imaginaria que a gente pudesse vir a mudar, e o quê dizer de “mudar de casa.”?

Não! Impossível! Casa, para mim, era sinônimo de um teto eterno.

Era nossa identidade maior!

Nascíamos com ela, para sempre.

Mesmo acreditando assim, no dia a dia, a programação da família foi, aos poucos, embalando o meu destino...

Tudo pronto, quatro horas da manhã, mamãe, Elvira, Edila e eu embarcamos, na maior expectativa e alegria de vida, na Companhia Real, rumo aos 1500Kms que nos esperavam de estrada.

Mas, de surpresa, logo na esquina da Praça 28 de setembro, houve uma parada inesperada na viagem: Tia Pequita, contrariando a promessa de não haver despedidas, apareceu, entregou este lindo quadro pintado por uma prima e um lencinho, todo barrado em richelieu e, no centro, bordado por ela, a palavra saudade. Triste, nos deu seu discreto beijo.

Todos nós nos emocionamos baixinho ... e, neste momento, eu conheci a primeira decepção da minha vida: a infância, logo ela, o meu maior patrimônio, havia ficado para trás.

Era fevereiro de 1963, Rio Branco permaneceu quietinha, naquela madrugada de verão.

Publicada no blog "Maria Cobogó" em 31.5.2021 - https://mariacobogo.com.br/a-mudanca/

Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 88, de setembro de 2018. https://anenet.com.br/wp-content/uploads/2018/09/Jornal_ANE_88_final_impressao.pdf

23 de março de 2011

Eurico

Dezembro de 2010,


Eurico querido,

Cadê você que não encontro???
Para onde foi?
Faz tempo que não nos falamos e queria tanto lhe ver …
Que rumo foi este, tão desconhecido, que não consigo lhe achar nunca, por mais fortes que sejam minha vontade e pensamentos??
Dezembro já está aí, Eurico, pertinho. A lindinha Isabela já vai fazer um ano, você tem que conhecer!!
Além disto, precisamos logo programar o nosso Natal.
Antes, podíamos ir ao sítio, para catarmos mangá Ubá, sentarmos no barranco, como gostàvamos, e ficarmos lá … conversando sobre o velho Rio Branco.

Assunto novo?? não, nem era preciso. Não importava!

O bom era poder estar alí, juntos, remoendo passado e recordando cada detalhe da nossa infância como se fosse uma grande surpresa para nós.

Afinal, manter essas lembranças nos ajuda a suavizar as saudades e, a cada dia que passa, percebo que deixamos o nosso Rio Branco faz muito tempo mas que ele não nos deixou, jamais!

Na verdade Eurico, mais do que tudo, eu quero acreditar sempre que ainda estou lá, acordando cedinho com aquele movimento alegre de casa do interior mineiro que não tem a menor pressa, principalmente na hora em que todos se encontram para o famoso café com leite.

A porta da casa ficava aberta o dia inteiro para quem quer fosse, bastando apenas chegar na base do Ô DE CASA!!! Não havia estranhos, Rio Branco era uma só família.
Na verdade, Eurico, vira e mexe, vai e vem, a gente parece querer mesmo, agora, na nossa idade, é voltar para casa, na chácara da Mello Barreto, de onde, bem vimos com o caminhar da vida, que nós nunca saímos...

Mas hoje, ainda é dezembro, estamos em Brasília tentando lhe encontrar. Lembre-se, você me prometeu e eu cobro, quero você sempre presente no nosso Natal!!!

Te amo muito!


Bjs

Elza

28 de agosto de 2010

40 anos depois


Nós tínhamos acabado de entrar no aeroporto, Marina e eu.

Era sexta, Carlos ia chegar e lá fomos nós, mãos dadas, passos largos, num clima de reencontro e quase correndo para desviar daquela multidão que se atropelava para não perder a hora ou, talvez, para abraçar mais rápido quem fosse chegar.

E, nesta de circular espaços ... desviar daqui e dali ..., num de repente, levei o maior susto! Eu vi uma pessoa que me chamou muito a atenção, uma imagem que conseguiu, em segundos, parar meu corpo e levar meu pensamento, completamente, para longe de mim. Mas eu não conseguia acertar, de jeito nenhum, com a memória. 

Fiquei me perguntando, de onde conheço? Será dos tempos de infância? Impossível! Já faz décadas que deixei o Rio Branco, a minha terra natal. 
Do Sacré-Coeur, colégio onde estudei por muitos anos?? Não, não era. 

Vizinha dos velhos tempos? Colega da Aliança Francesa ou da Cultura?? Também não. 

Estava toda de branco, carregava uma criança no colo e fui seguindo-a na tentativa de, pelo menos, conseguir cruzar olhares para ver se me reconhecia, se ia exclamar por me reencontrar, trocar sorrisos que fossem ainda de dúvidas, demonstrar alegrias ou trazer notícias de amigos. 

Era o que eu mais queria! 

Olhei, mas nada... Parei e fiquei alí, espreitando assunto que facilitasse uma conversa entre nós. 

E assim, nesta procura dentro do meu passado, eu, sem querer, sem qualquer planejamento ou despedidas, sem avisar sequer a mim mesma, comecei a viajar em lembranças e acabei me vendo em Rio Branco, aos 7 anos de idade. 

Nós morávamos na Mello Barreto, bem atrás da cadeia. 

Do lado direito, tinha a pensão da Dona Rosinha do Seu Totônho, pais do Celinho. 

Na frente, passada a linha do trem, a oficina do Sr. Wilson onde eu adorava ver as máquinas trabalhando e soltando trancinhas de aço moído como se fossem verdadeiras serpentinas de ferro enroladinho.
As filhas, Bárbara e Sandra, eram minhas amigas. E como me lembro da comida da casa delas, preparada pela Tia Chafia!! Pareço sentir, agora, o perfume da hortelã fresquinha bem espremida entre seus dedos, e vê-la, sentada na porta da cozinha, bacia no colo, amassando a carne moída para os quibes. Eram deliciosos!! 

Na esquina, antes da ponte, havia, de um lado, o Posto de Gasolina do seu Antônio, casado com Da. Glorinha, a primeira professora que jamais esqueci. No Posto, havia duas coisas que me fascinavam: uma placa enorme com um pneu desenhado que me fez passar anos soletrando e tentando entender, em bom português de criança recém alfabetizada, o que era " F I R E S T O N E ". Puro mistério!!! Outra, era uma vendinha simples do Posto, com uma porta só, onde mamãe comprava aqueles chicletes Adams, da caixinha amarelinha. Numa das astes da caixinha tinha um número, minúsculo por sinal, que uma amiguinha me disse, e eu acreditei na hora, lógico, que se eu juntasse uma sequência X de números ganharia uma caixa grande cheia de chicletes. Passei a infância juntando e neca de conseguir ... 

Do outro lado, no começo do famoso Caminho da Vovó, ficava o Conservatório. Batista era o maestro. Eu gostava de ir para as aulas mas talento? Nunca, jamais tive. 

Seguindo ... as casas da Enedina, filha do Peixoto; da Isis e Isa, da família do Sr. Joubert; dos Passos e da Dinalva, prima querida que veio morar perto de nós quando já preparávamos a mudança para Brasília. Uma pena ... 

No fundo do nosso terreno, divisando com o quintal, tinha a Cooperativa e o velho campinho de futebol onde empinar pipas era tudo de bom! Mas, mamãe sempre dizia que era brincadeira só de menino e, quando muito, eu podia ficar ali um pouquinho, desde que fosse naquela de espiar pela cerca sem poder atravessar os limites. 

O Xopotó, rio da minha terra, serpenteava nossa chácara de norte a sul. Para nós, verdadeiro mar doce. Nas suas margens, Eurico, Elvira e eu montávamos arquibancada para ver o vai e vem dos caminhões da Usina, no auge da safra, chegarem carregadinhos de cana para a moagem. 

Lembro que de tarde, bem no final do dia, gostávamos de ficar caladinhos para tentarmos escutar a matinêe, apenas escutar, dos filmes que passavam no Cine Maracanã: Tarzan; Ben Hur; O Vento Levou e Marcelino Pão e Vinho foram filmes que ficaram marcados nas nossas lembranças. 

Assim nosso tempo de criança de interior corria alegre neste pequeno espaço de geometria mineira e eu só parava quando mamãe me chamava para colocar o uniforme do Grupo Escolar Padre Antônio Corrêa. 

Eu não esqueço a sensação gostosa das suas mãos, dos seus gestos macios de mãe ajeitando suavemente cada detalhe do uniforme. Que saudades! 

Do laço de cetim branco que durava, quando muito, meio minuto apenas amarrado aos meus cabelos lisos; da meia de algodão que ia brigando com as Alpargatas Roda por todo o caminho até terminar completamente embolada no meio do meu pé, e eu detestava; da puxadinha final que mamãe dava na minha saia plissada, azul marinho, para que ficasse mais justa ao meu corpo miúdo e prendesse melhor a blusa de tricoline branca, até à lancheira de couro recheada de pão com goiabada e café com leite na garrafa. 

Tudo era bem vistoriado! 

Para nada ficar esquecido, ela ainda me levava até o portão e se despedia de mim, sempre com um discreto afago no meu queixo lembrando juízo e transmitindo, pelos seus olhares maternais, toda a proteção que seu coração pedia. 

Desta forma, abraçada a seus eternos carinhos e levada pelo vento eu corria sem medo, completamente protegida para chegar cedinho à escola; escolher um bom lugar e escutar as estórias encantadoras da Dona Zizinha Ubaldo. 

Como era bom! 

A fila no Grupo era sempre por ordem de tamanho. Os braços tinham que ser esticados o máximo, para frente e para a lateral, até limitar com precisão a distância entre cada colega. Só depois de perceber silêncio e elegância de todos é que Dona Yolanda, a coordenadora, começava o Hino Nacional. 

Do meu lado, todos os dias, eu reservava espaço para uma menina bem clara, uma colega quietinha, com algumas sardinhas no rosto e que agora, incrível, aqui nesse aeroporto de Brasília, quem diria? ... revirando a infância em pensamentos, eu a reencontro.  Sem dúvidas, é ela!! 

Curiosa como estava, não resisti. Pedi desculpas e fui logo perguntando: você não é de Rio Branco?!..., não teria estudado comigo?!... sou Elza Maria, filha da Dona Eponina e nós brincávamos muito de pique no Grupo. Lembra??!! Lembra de mim? 

Completamente assustada, reticente de quem tenta ajustar as lembranças, me respondeu:"- Ah, sim, sou Selma Silva Araújo mas eu fiz apenas meu primeiro ano primário lá no Grupo Padre Corrêa. Depois, eu me mudei para a Escola Normal". 

Inacreditável!! 

Mas foi assim, graças às marcantes memórias da infância, que vão ficando cada vez mais claras por conta da necessidade que sentimos de resgatá-las, que eu reconheci uma colega de turma passados 40 anos!!! 

Esta bela coincidência nos reuniu de novo. 

Agora é conversando com a Selma que eu consigo, morando em Brasília, ter o Rio Branco mais pertinho de mim. De conversa em conversa, que normalmente duram horas no telefone, eu visito com ela o meu passado sempre que me dá vontade e ainda consigo ter notícias de todos que fizeram parte da minha infância querida “que os anos não trazem mais”.

Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição n. 132. 7.1.2022.

1 de agosto de 2010

Que saudades de você


Eurico,

Que saudades de você!!

Que vontade imensa que hoje fosse Natal e que eu pudesse lhe telefonar cedinho e ir logo dando a “ordem do dia”, lembra? Era mesmo engraçado e só nós entendíamos este meu comando: “... coloque aquela camisa listrada de marinho e branco, tá?? Não se esqueça, também, do perfume que lhe comprei e daquele sapato marrom novo, com a meia, quero você bem lindo nas fotos!

Ah, vamos marcar logo 7 e meia na esquina que sobe para o La Salle, porque não quero entrar na W3. OK? Um dos meninos vai lhe pegar.

E era assim que o dia 25 de dezembro começava entre nós!

Como era bom!

Já acordava animada.
A mesa da ceia, eu gostava de ajeitar sempre de vésperas para testar cada brilho da decoração. A Vila do Papai Noel ficava no canto da direita, para que todos a vissem, logo de entrada. O centro, era sempre reservado para o velho presépio da nossa infância que todos os anos, não tem jeito, ainda me faz viajar nas lembranças. Pareço ver o caminhar feliz da gente indo com a mamãe lá na beneficiadora do Sr. Carlos Soares para pedir dois montinhos de arroz com casca. Em casa, a gente os ajeitava no prato fundo esmaltado, forrado com algodão molhado, e não mais do que 3 meses eram necessários para que virassem uma matinha verde, de 10 cm de altura, que faria sombra à manjedoura.

Até pouco tempo atrás, eu ainda tinha o pedaço de espelho que ela usava para simular o laguinho dos patos. Acredita? Era um charme esse detalhe!

De tarde, na copa, era hora de ajudarmos mamãe a fazer o pão dourado, aquele delicioso doce da nossa infância.

Quando a noite ia chegando, ela escolhia um de nós para acender, com a velha caixinha Fiat Lux, a vela do presépio que daria o clima de noite de lua e com estrelas, para iluminar o caminho dos três reis magos.

O menino Jesus, isto já era tradição das antigas, ficava sempre escondido em algum cantinho e só podia nascer na hora em que, juntinhos ao presépio na sala da frente da casa, escutávamos mamãe com suas orações.

Pequenos que éramos, esse momento era enorme e não era nada fácil ficar quieto, de joelhos, com aqueles vestidos de organdi piniquento e tentar entender a política dos seus perdões, que abrandava qualquer erro dos adultos, e conseguir acompanhar seus pensamentos sem conversa, olhinhos de lado e muita curiosidade.

Afinal, o importante eram os presentes e o poder sair correndo, depois, exibindo alegria de criança que acreditava em Papai Noel. Para mim, nada de bonecas caras, mas uma coisa eu fazia questão: que fosse só minha e que tivesse diâmetro suficiente para se ajustar ao meu colo de menina.

E surgia sempre, não sabemos por qual dos milagre, carrinhos, caixinhas de bolinhas de gude, panelinhas, sabonetes para a vovó e bonecas de papelão, das imensas, com vestidinhos de retalhos dos nossos, barrados e engomados.

E assim, de lembranças em lembranças, eu ia terminando a minha mesa...: o chester com farofa de miúdos bem molhadinha e enfeitado com os fios de ovos que refletia um lindo dourado em tudo; a tábua de frios sortidos; cesta de frutas; o tender caramelado com rodelas de abacaxi, figos frescos, ameixas pretas e cravos da índia; a bandeja de rabanadas que você gostava de comer antes da ceia e o som, bem natalino, alegrando o ambiente.

Eu deixava para o final, o meu famoso, modéstia ä parte, e bem disputado, bolo de nozes com cobertura de creme inglês. Lembra?

Tudo pronto e era a hora de começarmos o nosso tão alegre brinde.

Antes, porém, no meio da tamanha confusão de conversas, você pedia tempo para dar uma geral na família e perguntar, por cada um, usando o nome duplo das Marias, de nós irmãs, e incluindo a imensa lista de sobrinhos.

Com seu famoso sorriso, queria notícias de todos, até dos vizinhos, menos amigos do que meros moradores do lado. Você demonstrava a satisfação, por tudo e por todos.

Mas agora?? Brindar como Eurico? Brindar o quê?... diante de tantas saudades que sinto de você?

Faz dias que lhe procuro e não o encontro. Como conseguiu sumir assim do nada, se fomos todos juntos, no dia 5 de agosto???

Precisamos programar as festas de final de ano e, por favor, quero você sempre presente no meu Natal!!!

Meu beijo,

Elza

9 de julho de 2010

Meu pé de sapoti


A promessa era antiga: ao voltarmos para o Brasil vou levar você para conhecer o pé de sapoti! Prometo!!!

Desde os tempos em que para enfrentar os gelados finais de semana em Washington a família toda se aconchegava no basement, abarrotado de brinquedos, lareira bem quentinha, eu distraía Marina, a caçula dos três filhos, contando histórias.

Para ela, nenhum assunto era mais emocionante do que ir ao meu mundo de criança passado no velho Rio Branco.

Uma, duas, três vezes, ou muito mais do que isto eu tinha que ficar repetindo histórias e minha infância não podia jamais ter fim a não ser que o sono chegasse e que o branquinho da neve, pelos vidros, virasse noite escura e ela dormisse feliz.

Era sempre assim! 

O pique-pega ao redor da Fonte da Praça; o cabra-cegas no sobrado da querida tia Pequita; as brincadeiras na casa da Enedina ou da Isis, onde o quartinho de costura da D. Olga me fascinava e eu fazia da minúscula meia hora que mamãe me deixava ir, um dia de imaginação viajando entre sobrinhas de retalhos e moldando botõezinhos de papelão nos vestidos das bonecas ...

Quando o relógio me alertava, eu voltava para casa e ia direto para o pé de sapoti.

Ali, entre galhos com folhagens bem verdinhas e fechadas, embaixo de umas madeirinhas bem ajeitadas, eu guardava toda a família de “filhinhas” e, lógico, meus segredos. Era a minha casinha de bonecas!! Tinha até escadinha para subir. O máximo!!!

Tudo era assunto e Marina, com seus olhinhos brilhando, tinha a certeza de que minha cidade natal era idêntica à fazenda do Chico Bento.

Até que em 2003, ela com 16 anos, fomos para Rio Branco.

Ao chegar, logo na entrada, bem perto do Clube dos Cinqüenta, eu pedi para meu marido parar o carro.

Queria, a pé, bem devagar, ir exibindo a ela e a uma amiga, as lembranças do passado: ... o Grupo Escolar Padre Antônio Corrêa; ... a rua da D. Júlia que fazia picolé de K-suco de framboesa (a boca ficava vermelhinha e eu achava lindo); ... a venda onde comprava aqueles suspiros cor de rosa cheios de bolinhas coloridas e goiabada em triângulo...e assim fomos.

De repente, vi, dentro de uma varanda, uma senhora bem idosa. Parecia esperar o tempo, esquecida de si. Olhei-a fixamente – precisava reconhecê-la de qualquer forma e encontrar um pouquinho que fosse de intimidade entre nós.

Queria trocar saudades, saber da família, dos vizinhos e ir entrando logo casa adentro, perguntando pelo café e revendo todos do meu passado.

Impossível!

Fui embora na maior decepção com a realidade, mas minha amiga percebendo insistiu para que eu voltasse. Voltei ... parei de novo ... coloquei as bochechas entre as grades da varanda e ali fiquei. A acompanhante da senhora idosa, estranhando muito, indagou: perdeu algo aqui??? Meio sem jeito, eu respondi: "- não, não perdi nada, mas queria muito saber se ela conheceu a minha mãe.... quem sabe??? Seria tão bom ..."

Para meu espanto e absoluta surpresa, ao ver-me de frente, Tina, a acompanhante, inesperadamente, respondeu: "- a árvore que sua mãe tanto gostava, o Pé de Sapoti, está lá!!!".

Perplexas, nós não tivemos olhos para acolher tantas lágrimas! Não podíamos acreditar em tamanha coincidência! Como? Como ela pode falar exatamente no Pé de Sapoti, motivo da nossa viagem e famoso que era unicamente para mim? Como assim?

Completamente sem graça, pediu desculpas pelo desconforto e disse que viu, em mim, minha mãe, D. Eponina, que ela tanto conheceu.

Continuamos a caminhada e chegamos até minha velha casa.

Hoje, é o Clube dos Bancários e, em meio a todo o piso de cimento, só deixaram ficar apenas uma árvore: o meu Pé de Sapoti.

Agora, uma história na minha vida.



Publicado no blog Publicada no blog "Maria Cobogó" em 11.9.2021. https://mariacobogo.com.br/meu-pe-de-sapoti/

Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 100, de abril/maio de 2020. https://anenet.com.br/wp-content/uploads/2020/03/JORNAL-da-ANE-n%C2%BA-100.pdf

Publicado no Jornal "A Voz de Rio Branco", de Minas Gerais-MG, Edição n. 1037. de 30.1.2009.