25 de dezembro de 2022

O Melhor da Festa

O convite chegou totalmente de repente!
Foi uma absoluta surpresa abrir o computador, naquela noite, e encontrá-lo.
Afinal, tempos, meses, que ler e-mails já não fazia mais parte do meu cotidiano. Ficava semanas, tranquilamente, sem olhar. 
Mas, nesse dia, foi demais! 
Foi muito bom!!

Era para festa de aniversário de 70 anos de uma prima muito querida e que eu não encontrava há décadas. Prima especial, vizinha da infância mas que eu nunca ia imaginar que se lembraria de me incluir na sua lista de convidados.

Falo isto porque saí da minha cidade natal, Visconde do Rio Branco, interior de Minas, ainda aos 11 anos de idade. Nos mudamos para Brasília e, com o tempo passando, a vida na Capital foi me apresentando novos rumos e Rio Branco ficando cada dia mais longe de mim.

Mas a alegria de ver o convite foi estupenda!! 

E, antes mesmo de pensar em qualquer senão que me impedisse de ir, antes mesmo de consultar até a agenda da família, eu imediatamente confirmei presença respondendo: iremos, sim, lógico, Carlos e eu!!! 

Daí para a frente, passei a viver em harmonia diária com a velha frase de que: “o melhor da festa é esperar por ela”.

Assim foi...eu não conseguia pensar em outra coisa. O local seria em Aracaju, meados de junho de 2019, em pleno dia do mais famoso forró Nordestino!

Para completar, acreditem, o convite registrou bem claro que o tema seria uma volta aos anos 60: Movimento Hippie!!!

Maravilha!!

Seria a mais rara e especial oportunidade de poder usar, novamente, o vestido hippie, feito pela minha mãe e guardado, que estava, desde quando eu tinha 15 anos! 

Vejam só a coincidência!! Era mesmo para eu ir!

Passagens compradas, avisei à Prima que, carinhosamente, ainda se preocupou em “rechear“ um pouco mais o convite nos avisando que a hospedagem dos convidados de fora, os viajantes, seria na casa grande dela, de praia. 

Tem espaço para todos, disse!!

Eu bem que gostaria de aceitar mas criada com aquele excesso de cerimônia mineira, de mãe que teve 7, agradeci justificando que, para aproveitarmos o máximo, ficaríamos em Hotel.

Para compensar a minha “desfeita” ela avisou que, então, eu não escaparia de ser recepcionada por todos, no Aeroporto Internacional de Santa Maria, em Aracaju.

Adorei!!

O voo foi tranquilo. 

Quando o piloto avisou que iniciaria os procedimentos de descida, eu fiz questão de correr ao “toilet” para dar uma retocada final na maquiagem. Um pouquinho mais de batom... blush nas bochechas ... Meu marido ria, mas era importante caprichar no visual!! E como!! 

Com a ansiedade à flor da pele, fui a primeira, lógico, a descer as escadas já preparando aquele olhar 360 graus. 

Aprumei bem o corpo, levantei o pescoço e fui ...

Queria, num segundo, enxergar tudo e todos! 

Mas, pasmem, inacreditável, não havia, sequer, uma plaquinha, por mais simples que fosse, com nosso nome.  Tampouco mensagem no celular?!?

Mesmo contra minha vontade, braços e sorriso foram se fechando lentamente. E eu, não deu outra, morri de vergonha de mim.

Mas o vazio desta chegada, não imaginam, me trouxe a pior das dúvidas: será que acreditei demais naquele convite? 

Que exagerei nos sentimentos de saudades?

Que priorizei a vontade imensa deste programa acima do bom senso a tal ponto de só colocar, na mala, um único traje chique, de festa, o meu vestido hippie?? 

E agora, se ninguém corresponder ao “dress code”, anos 60? 

O quê que eu faço??

De Uber chegamos à casa da praia.

Bastou abrirem a porta para esquecermos, completamente, o vácuo da recepção no aeroporto. Eram tantos amigos chegando, tantos abraços fraternos e saudosos, tanto agito formando um verdadeiro mundinho mineiro em Aracaju, que acabaram distraindo a agenda da prima anfitriã que se esqueceu, até, de ir pegar a própria filha, no Santa Maria?!!! 

Foi perdoada!!!

De tarde, no continuar de entrada dos convidados, o clima já era de pura alegria, bem ao estilo Paz e Amor! E à noite, os parabéns foram num lindo clube todo decorado a propósito!

Não faltaram calças jeans; pantalonas boca de sino; batas indianas; barbas e cabelos longos presos por faixas coloridas; macacões jeans; óculos redondos enormes e até, acreditem, uma Janis Joplin perfeita para personalizar mais o ambiente e levar todos a se sentirem em plena juventude!!

Dentro de mim, então, me sentia orgulhosa e cheia de brilhos. Afinal, o vestido estava tão no ponto certo que indagavam se era novo.

A festa acontecia belíssima e parecia que não teria fim!! 

Tanto foi que, no dia seguinte, ainda continuou na praia. 

Em mesas distribuídas na areia, brisa leve, mar verde, estavam ali, todos os conterrâneos de novo reunidos para reviver a festa e, principalmente, recordar os velhos tempos.

E naquela de conversa vai e conversa vem, um primo me pediu para que eu lesse uma antiga crônica minha, na qual eu dava uma geral na infância. 

Mesmo surpreendida com o inusitado pedido, celular na mão, comecei logo a ler: 

 “...A cada crônica que escrevo sobre o Rio Branco percebo que saí dele faz muito tempo,             mas que ele não saiu de mim, jamais! Eu penso que ainda moro lá, na chácara da Mello Barreto, que vou acordar cedinho amanhã com o barulho dos bichos e abrirei as janelas para ver o terreiro coalhado de mangas Ubá, fresquinhas. 

E assim, nesta procura dentro do meu passado, eu, sem querer, sem qualquer planejamento ou despedidas, sem avisar sequer a mim mesma, comecei a viajar em lembranças e acabei me vendo, uniformizada, pasta de couro na mão, entrando no Grupo aos 7 anos de idade. 

A fila no Padre Corrêa era sempre por ordem de tamanho. 

Os braços tinham que ser esticados o máximo, para frente e lateral, até limitar, com absoluta precisão, a distância entre cada colega. Somente depois de perceber silêncio, harmonia e elegância de todos, é que Dona Yolanda Amim, a professora querida, começava o Hino Nacional... 

Mas, de repente, neste parágrafo da crônica, uma das convidadas, emocionada, se levanta e me diz: sou Graça Amim, D. Yolanda é a minha mãe!!

Não pude acreditar! Por segundos emudeci.

Como poderia imaginar tamanha coincidência? Mais ainda, perceber que ela usou verbo ser, no presente do indicativo, já me sinalizando que a professora estaria viva?!

Nem imaginava ter, dentro de mim, mais sentimento para acomodar tanta alegria! Inacreditável!  Todos se emocionaram!  Foi uma surpresa tão marcante, e extraordinária, que me fez voltar, em seguida, a Rio Branco, para abraçar a estimada Da Yolanda 57 anos depois do nosso último encontro, à época da minha formatura do primário.

Momento lindo!!!! Inesquecível!!! Foi O Melhor da Festa!!

E para todos os conterrâneos e amigos presentes, convidados da querida prima Moema, a festa não acabou!! Ficou para sempre, dentro de cada um de nós!!!

Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição n. 130. 1.11.2021

Presente, No Meu Natal!


Eurico,

Que saudades de você!!

Que vontade imensa que hoje fosse Natal e que eu pudesse lhe telefonar cedinho e ir logo dando a “ordem do dia”, lembra? Era mesmo engraçado e só nós entendíamos este meu comando: “... coloque aquela camisa listrada de marinho e branco, ?? Não se esqueça, também, do perfume que lhe comprei e daquele sapato marrom novo, com a meia, quero você bem lindo nas fotos!

Ah, vamos marcar logo 7 e meia na esquina que sobe para o La Salle, porque não quero entrar na W3. OK? Um dos meninos vai lhe pegar.

E era assim que o dia 25 de dezembro começava entre nós!

Como era bom!

Já acordava animada. A mesa da ceia, eu gostava de ajeitar sempre de vésperas para testar cada brilho da decoração. A Vila do Papai Noel ficava no canto da direita, para que todos a vissem, logo de entrada. O centro, era sempre reservado para o velho presépio da nossa infância que todos os anos, não tem jeito, ainda me faz viajar nas lembranças. 

Pareço ver o caminhar feliz da gente, mãos dadas,indo com a mamãe lá na beneficiadora do Sr. Carlos Soares para pedir dois montinhos de arroz com casca. Em casa, a gente os ajeitava no prato fundo esmaltado, forrado com algodão molhado, e não mais do que 3 meses eram necessários para que virassem uma matinha verde, de 10 cm de altura, que faria sombra à manjedoura.

Até pouco tempo atrás, eu ainda tinha o pedaço de espelho que ela usava para simular o laguinho dos patos. 

Acredita? 

Era um charme esse detalhe!

De tarde, na copa, era hora de ajudarmos mamãe a fazer o Pão Dourado, aquele delicioso doce da nossa infância. O pão, o Sr Acássio já sabia, tinha que ser de véspera.

Quando a noite ia chegando, ela escolhia um de nós para acender, com a velha caixinha Fiat Lux, a vela do presépio que daria o clima de noite de lua e com estrelas, para bem iluminar o caminho dos três reis magos.

O menino Jesus, isto já era tradição das antigas, ficava sempre escondido em algum cantinho e só podia nascer na hora em que, juntinhos ao presépio na sala da frente da casa, escutávamos mamãe com suas orações.

Pequenos que éramos, esse momento era enorme, gigante! E não era nada fácil ficar quieto, de joelhos, com aqueles vestidos de organdi piniquento paratentar entender a política dos seus perdões, que abrandava qualquer erro dos adultos, e conseguir acompanhar seus pensamentos sem conversa, olhinhos de lado e muita curiosidade.

Afinal, o importante para nós eram os presentes e o poder sair correndo, depois, exibindo alegria de criança que acreditava em Papai Noel. 

Para mim, nada de bonecas caras, mas uma coisa eu fazia questão: que fosse só minha e que tivesse diâmetro suficiente para se ajustar ao meu colo decriança.

E surgia sempre, nunca soubemos por qual dos milagres, carrinhos, caixinhas de bolinhas de gude, panelinhas, sabonetes para a vovó e bonecas de papelão, das imensas, com vestidinhos de retalhos iguais aos nossos, barrados e engomados com calda de maizena.

E assim, de lembranças em lembranças, eu ia terminando a minha mesa...: o Chester com farofa de miúdos bem molhadinha e enfeitado com os fios de ovos que refletia um lindo dourado em tudo; a tábua de frios sortidos; cesta de frutas; o tender caramelado com rodelas de abacaxi e cravos da índia; figos frescos; a bandeja de rabanadas que você gostava de comer antes da ceia e o som, bem natalino, alegrando todo o ambiente.

Eu deixava para o final o meu famoso, modéstia àparte, e bem disputado, bolo de nozes com cobertura de creme inglês. Lembra?

Tudo pronto e era a hora de começarmos o nosso tão alegre brinde.

Antes, porém, no meio da tamanha confusão de conversas, você pedia tempo para dar uma geral na família e perguntar, por cada um, usando o nome duplo das Marias, de nós irmãs, e incluindo a imensa lista de sobrinhos.

Com seu famoso sorriso, queria notícias de todos, até dos vizinhos, menos amigos do que meros moradores do lado. Você demonstrava a satisfação, por tudo e por todos.

Mas agora?? Brindar como Eurico? Brindar o quê?... diante de tantas saudades que sinto de você? Faz dias que lhe procuro e não o encontro. Como conseguiu sumir assim do nada, se fomos todos juntinhos, naquele dia 5 de agosto?

Precisamos programar as festas de final de ano e, por favor, onde quer que esteja, não se esqueça jamais, que estará semprePresente NMeu Natal


Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição n. 131. 8.12.2021

Elegante


Eu tinha no máximo 6 anos de idade.

Nós morávamos na minha querida Visconde do Rio Branco, Zona da Mata Mineira, numa chácara próxima à Rua Melo Barreto que hoje é o famoso Clube dos Bancários.

Naquela época, final da década de 50, o Xopotó, nosso mar mineiro; a Estrada de Ferro da Leopoldina e o Campinho de Futebol da velha Cooperativa fundada pelo Dr Correia Dias, faziam divisas conosco.

Também, havia, defronte, a Oficina do Sr Wilson e, na lateral da direita, os vizinhos eram a família Machado, da conhecida “Pensão do Seu Totônio Machado, cuja mulher, a Dona Rosinha, confeccionava as belas asas para as crianças-anjinho coroarem Nossa Senhora.

E era comum, vez ou outra, comprarmos marmita da Pensão.

Em sendo assim, eu bem sabia, que quando o delicado me chamar por “Elzinha” era deixado de lado pela vovó Neném, e que ela usava o meu prenome completo:”” Elza Maria””??!!, vichi... era sinal de algum trabalho e tinha mesmo que sair no galope, criar asas nos pés, para não atrasar ao chamado.

De praxe, a lista de afazeres era sempre a mesma: bater nata para fazer manteiga naquelas latas de Gordura de Coco Carioca que viviam engorduradas e deslizando das minhas mãos miúdas, achava uma chatice... ; prender o “bendito” Perigo no canil para, depois, abrir o galinheiro e espalhar farelo no quintal da frente; colocar água nas gaiolas dos Pintassilgos-mineiro ... e, ai de mim se n desse conta direitinho de tudo isto. Rolava castigo , sem dúvida.

Mas, nessa manhã, o rol de obrigações foi maior e bem mais responsável!! 

Na falta da Marfízia, a empregada de décadas, fui a escolhida para fazer um “delivery”, veja só, uma criança, tinha que buscar a janta na vizinha Pensão do Seu Totônio.

Para começar, o caminho era estreito, cheio de Picão-da-praia; Carrapicho de Carneiro; Meloso dos compridos e touceiras de capim Brachiaria que, além de piniquentos, soltavam aquelas sementes pretinhas que ficavam dias grudadas dos pés aos cabelos.

E lembro como se fosse agora, dependurada na cerca de bambu Taquara que fazia a divisa dos terrenos, gritando a encomenda do único prato da casa: o famoso PF Completo.

Logo apareceu uma servente, bem novata, que, estranhando ter q entregar a marmita para mim, criança, preferiu conferir o pedido e me indagou: você é filha de quem? Seria da Dona Eponina, aquela senhora elegante que mora na casa de cima do Xopotó??!!

Elegante???

O quê??

Como? Levei um susto, n conhecia a palavra e, preocupadíssima, confirmei. Também, criada naquele estreito mundinho de interior mineiro, de pouco escutar conversa, de jamais poder ficar entre os adultos e sequer frequentar escola, o título de elegante, para definir mamãe, me soou absurdo, um verdadeiro mistério e uma curiosidade sem fim.

Tudo tão misterioso que guardei só comigo pois não tive coragem de indagar, a quem quer que fosse, o seu significado e continuei, anos a fio, carregando a preocupante dúvida para entender o seu novo título de Elegante!!

Mas, mal sabia eu, naquela idade da infância, que essa elegância dela já se fazia uma marca pessoal, diariamente, e em todos seus gestos e posturas.

Sem dúvida, foi muito distinta!!

A começar que era alta, esguia, sempre vestida na base do “comme il faut”, traços delicados e percebia-se sua personalidade educada, a cada momento.

Na verdade, convivíamos com sua elegância o tempo todo! 

Falar alto; se levantar da mesa ou começar a refeição antes das visitas e ou adultos; entrar nas casas sem, antes, limpar os sapatos no capacho, cumprimentar ou falar licença; esquecer de pedir a bendita benção aos avós, nem pensar!

Jamais!

E quando qualquer um dos filhos agia errado, ou começava um tititi de briguinhas na casa, nada dela levantar a voz ou braços. Elegantemente, bastava seu olhar chamando juízo ao culpado, para que, discretamente, a harmonia voltasse em cena.

À mesa, jamais assentávamos antes dos adultos e nunca, nunca quando como anfitriões, podíamos terminar de comer, ou sair da sala primeiro que as visitas.

Era regra para se cumprir!!

Outra marcante distinção de sua postura elegante eram suas mãos! Estavam sempre posicionadas, postas delicadamente acima da cintura de forma a transmitir compreensão, calma. Não esqueço disto!!

Nos últimos 7 de agosto ao nosso lado, quando indagávamos o que gostaria de ganhar de aniversário, com sua peculiar elegância e discrição respondia com a voz já baixinha, desgastada pelo tempo mas com imenso sorriso nos olhos: “meu melhor presente é a presença de todos”!!

Mas, elegante, elegante no mais verdadeiro sentido da palavra, ela foi mesmo, naquela madrugada em que, sem demonstrar desconforto, sem incomodar ninguém, sem chamar por qualquer dos filhos, sozinha no puro silêncio do seu quarto, elegantemente, ela se despediu de todos nós, dormindo para todo o sempre!!!


Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição n. 139. 6.8.2022.


18 de julho de 2018

Era uma vez




Sempre que me dá vontade de escrever uma crônica eu preciso mesmo é de voltar à infância, aos meus exatos seis anos. Idade em que, segundo mamãe, conseguir dar o laço na Alpargatas Rodas era absoluta referência de maturidade. Era mesmo.

Daí para frente, acreditem, estava garantida a matrícula no Grupo e podíamos atravessar a porta da frente da casa; cruzar os limites do jardim e encontrar a rua, sozinhos. O máximo! Marco, que não dá para esquecer jamais!

Basta eu, agora, fechar bem meus olhos e em segundos chego de novo à beirinha do Xopotó, meu inesquecível “mar” da infância. Ah, como é bom ficar aqui nesta terrinha fértil, úmida, quietinha e cheia de perfumes onde comecei a criar a minha história. O dia na minha casa amanhecia junto do por do sol, acreditem!

Meu dia era a noite e minha noite não parecia ter fim... Sabem porquê? Porque às seis da tarde era quando eu me aninhava na maciez do colo da minha mãe, que saudades... e ela começava:

- “Elzinha: Era uma vez uma menininha que morava aqui, na chácara da Mello Barreto, na sua verdadeira brinquedoteca, tudo é dela.”

E eu sou mesmo, a dona, sozinha, dessa imensa natureza que me rodeia.

O pular corda? Basta eu pegar um montinho desse cipoal aqui, que margeia a velha cerca de bambu; deixar curtir um dia enroladinho na beira do fogão à lenha da cozinha e o brincar já está garantido, por meses e meses!!

Bambolê? Hum, quem diria? Faço num minutinho de lasca de bambu novinho, amarrado com barbante que sobra dos embrulhos de pão da padaria do Acácio. E pronto! Por dias, balançando na minha cintura, tenho a certeza exata de ver, feliz, que é o mundo que gira ao meu redor, exclusivamente para mim.

Aqui, na direção da casa da D. Rosinha, está a minha plantação de cana de açúcar caiana. Dessas touceiras, fabrico o brinquedo que mais gosto mas que nunca teve nome. Num faz falta! Ele se resume apenas nisso, veja só: num pedaço de sabugo de caiana velha, bem murchinho, bem sequinho, onde enfio esse arame dobrado em forma de ponto de exclamação.  Depois?! Basta eu pegar essa tampinha verde, da lata da Gordura de Coco Carioca Brasil e sair disputando velocidade comigo mesma e, nessa de ir guardando lembranças, passo o dia correndo e equilibrando essa tampa.  Muito bom!

Dos bambus armados em papel crepom, colados com grude feito de maizena pela mamãe, eu fabrico os lindos papagaios. Lindos e que voam de verdade! Sobem tão alto quanto os pássaros. Com eles eu vôo junto, eu viajo sempre, como agora, aqui, onde embarco.

Veja só, lá embaixo é a pensão do Sr Tôtonio; o velho pontilhão que cruzo sempre com muito medo; depois, a rua do Divino onde, à esquerda, olhem bem, é a casa da Dodoca com seu lindo presépio. Continuando, sobrevôo a 28 de Setembro bem devagar para poder enxergar o sol clareando todo o sobrado da querida Tia Pequita. Que lindo ver aqui do alto!

Mais adiante, a velha matriz. Até já ouço baixinho o belo hino do Ângelus anunciando o entardecer e me alertando ser hora de voltar para casa. Afinal, o Rio Branco inteiro, em posição de sentido e respeito aos velhos dogmas, já se faz quieto... Que pena! Tenho mesmo que voltar...

Embarco e desço na beirada da linha, obedecendo o velho conselho de nunca atravessar, sozinha, os trilhos da Leopoldina. O perfume da tarde ainda guarda o delicioso cheiro de dezembro, das mangas ubá.

Mas, cadê tudo que é só meu? Cadê meu parque de diversões? Minha alegria? Meu pula corda, meu bambolê? A velha touceira das caianas? Era aqui! Nada?... O que é isso? Como assim?! Que escuridão é essa, absoluta, no meu velho mundo da infância? Não escuto nem o tilintar de marmitas, típico da hora do jantar.  Grito pela mamãe. Que atraso é esse? Cadê você? Preciso me aninhar na maciez do seu colo, sentir seu aconchego...  

Não, não quero e não vou acreditar, jamais, que o tempo passou e que a estória virou verdade e que tudo, tudo, para sempre mesmo, Elzinha, Era uma vez!


Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição 135, 5.4.2022. 

16 de fevereiro de 2014

Nothing is perfect!


   Quanto mais quente melhor ... nothing is perfect.


No meu mundo da infância , o universo parecia ter apenas dois   “”pontos””  cardeais: direita e esquerda. Era tudo tão pequeno, tão de interior mineiro que esse sentido de lateralidade se aprendia antes mesmo da idade da razão e, daí para frente, mesmo andando sozinhos, estávamos no prumo e tudo dava certo.  

            Tudo era perfeito!

Os pontos de referência eram poucos, mas da maior importância! E para seguí-los,  bastava eu atravessar o portão da minha casa, dar uma virada de corpo para um, ou outro lado e caminhar para a frente.  Não tinha mesmo como perder o rumo.

A esquerda, até q não me agradava tanto, era a saída de Rio Branco. Mas a direita??!  Engraçado ... pode ser pura coincidência, mas na geografia da minha cidade, ela sempre teve muito mais poder. A começar, que na época, esse era o lado do mais significativo destino de todos: o destino da fé. A Igreja matriz São João Batista se destacava no topo da praça e todos os programas giravam em torno dela.

Para mim, então, vivendo na quietude da chácara, chegar à Matriz nos fins de semana significava chegar ao mundo inteiro!  Enquanto a família assistia à missa das 8hs, eu encontrava todas as crianças e ficava brincando no balaustre esperando a hora do programa que eu mais gostava; a matinêe no Cine Brasil. Eu adorava!

            E nada me faz esquecer o filme Quanto mais Quente Melhor!

          Vestida de amarelo de broderi com lacinho de gorgurão na frente;  sapato pretinho de verniz;  conjunto de ban-lon herdado da prima Cristina; grapette e saquinho de pipoca,  lá nos sentamos, mamãe e eu, na primeira fila.

          Risos, nesse filme, foi o que não faltou! Quase ainda escuto nossas gargalhadas com a confusão do Jack Lemmon que, fantasiado de mulher para conseguir emprego, acaba vítima da paixão de um milionário que tudo faz para se casar com ele. Promete rios e fundos, faz planos para o casamento ... para a lua de mel ... para os filhos que terão...

Aflito, Lemmon tenta ainda explicar de qualquer jeito, que não pode se casar com ele, que não pode aceitar nada disto e mais do que tudo,  que não pode messssmo, porque é homem!!.

Embevecido de paixão, o apaixonado não se espanta e responde com a maior naturalidade: nothings is perfect ... e continua com seus planos!!! 

Saímos do cinema e seguimos rindo pelo caminho de casa. E até hoje,  percebo, o Quanto Mais Quente Melhor não me saiu de cena!!

Todas as vezes, enquanto pude, que reclamei da vida para a minha mãe ela me fazia voltar ao filme, por menos cômico que fosse meu problema. Eu dizia: mas como isto foi acontecer, mamãe? Eu pensei em tudo com detalhes ...,  eu programei da melhor forma... eu procurei o melhor script para que fosse completamente um happy end ... Ela, bem sábia e experiente de tantos anos vividos na base dos ups and downs me olhava, fazia um compreensivo balançar de cabeça e me consolava da forma mais alegre: 

Elzinha, lembre-se para sempre: nothing is perfect!!!


Les grandes et pures affections ont cela de beau, qu'après le bonheur de les avoir éprouvées, il reste le bonheur de s'en souvenir.”  Alexandre Dumas!!!


Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição 138, de 6.7.2022.
Publicada no blog "Maria Cobogó" em 16.8.2021 - https://mariacobogo.com.br/nothing-is-perfect/
Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 90, de novembro de 2018. https://www.anenet.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Jornal_ANE_90_ANE_impressao.pdf
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4 de maio de 2013

O Café de Fila





Eurico, lembra do dia em que estávamos aqui em casa quando a Elvira telefonou toda entusiasmada e disse:

-"Elza, a Globo abriu um concurso para que as pessoas possam escrever sobre uma receita que marcou nossa vida. E tem que ser uma receita mineira. Veja só! Inscreva-se lá, com a do Café de Fila da Tia Pequita. Era tão gostoso e foi tão importante para nós!" 

Lembra disto, Eurico?

Na mesma hora corri ao computador e abri o site. Fiquei super feliz quando percebi que eu não precisaria enviar a receita. Era tudo que eu não tinha!

Nunca pensamos, dentro daquele interior mineiro, em aprender a fazer o inesquecível café com chocolate, creme de leite fresquinho e raspinhas de canela ralada. Também ... quando imaginaríamos, naquela idade de infância, que tudo de bom que tínhamos poderia acabar ou que, um dia, a querida tia fosse embora para sempre e,  com ela, a deliciosa receita do Café de Fila?

A Globo acertou em cheio: o importante mesmo não era um papel de receita e, sim, a emoção e tudo o mais que ficou gravado, em família, ao redor de um prato.

Afinal, foi no meio das xícaras de porcelana branquinhas e no caminhar daquela fila que iniciamos  o ritmo de vida que hoje se faz história.

E o nosso café começava na Padaria do Acácio que ficava ali, de frente para o jardim da 28 de Setembro. Já entrávamos correndo para aquele balcão meio de madeira, meio de vidro e velho,  no centro da padaria. Era uma geladeira quadrada, baixa, com um motor super barulhento e várias tampas redondas. De tantas incursões naquela máquina friinha já sabíamos de cor o rumo  dos deliciosos picolés que queríamos. O preferido era o de coco queimado - e redondo!

Pães de sal fresquinhos, sequilhos, doce de mamão verde ralado e as brevidades que a tia Pequita encomendava faziam sempre parte da nossa conta. Conta que ficava pendurada para o final do mês, em respeito à confiança de anos de vizinhança. 

Assim, de embrulhinhos em embrulhinhos de papel de pão amarrados em barbantes, chegávamos ao Sobrado na hora do café e nada de pressa.
Nem podia. A hierarquia, herdada da rígida educação dos antigos, já fazia parte da cerimônia em todos os sentidos. 
Primeiro, os adultos ocupavam a mesa principal – a de toalha de linho branco. Depois, os "primos-visita", que vinham do Rio e que, a nós, encantavam tanto que não importavam nem os nomes. Todos eram bem vindos, mesmo sendo colocados, lógico, à nossa frente.
No final,  bem depois de todos,  chegava a nossa vez - a das crianças ”de casa“.

Você, Eurico, menino sapeca, feliz e educado, estava sempre ali, na retaguarda da fila para guardar nossos cantinhos e ceder, a todos, a sua vez.

E, agora, Eurico, porquê mudou os hábitos?
Porque fugiu às antigas regras?
Porquê não esperou a sua vez?
Porquê furou a fila, nos deixou sem rumo e sem o café?

Beijos de quem vive com saudades de você,

Elza


Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 95, de junho/julho de 2019https://anenet.com.br/wp-content/uploads/2019/05/Jornal_da_ANE_95_versao_eletronica.pdf

Publicado no jornal ''A nova Imprensa" de Visconde do Rio Branco/Minas Gerais-MG, Edição n. 134. 8.5.2022.

12 de outubro de 2011

A Mudança


A mudança


A cada crônica que escrevo sobre o Rio Branco percebo que saí dele faz muito tempo, mas que ele não saiu de mim jamais!

Eu penso que ainda moro lá na chácara da Mello Barreto, que vou acordar cedinho amanhã com o barulho dos bichos e abrirei as janelas para ver o terreiro coalhado de mangas ubá fresquinhas.

Eu não consigo deixar de me ver menina, bem sapeca e feliz, correndo a disputar velocidade com o vento como que, se assim, fosse impossível deixá-lo passar por mim e virar tudo lembranças.

Na verdade, eu preciso agora é de recordar o dia em que a mamãe me contou que mudaríamos. Nós voltávamos da missa, programa nosso de todo domingo, quando ela tocou no assunto com uma peculiar cerimônia, de mãe mineira, que não sabia muito bem como aquela notícia ia ser aceita por mim: “...Elzinha, sabia que vamos nos mudar para a Capital do Brasil?? Para Brasília?

Na hora, preocupada com a surpresa do meu silêncio, ela continuou ilustrando a notícia ... a cidade é linda, acabou de ser construída, fica no meio do Brasil, você terá uma escola novinha,
muitos amigos para fazer e, eu prometo: passaremos nossas férias aqui, no sobrado.

Com meus pensamentos ainda de criança, eu não tive dúvida de que a mudança seria uma imensa caixa, com todo o meu Rio Branco embrulhado dentro. Poderia abrí-la, a qualquer momento.

Nada me faria falta! Nada ficaria para trás!!

Levaria tudo e todos que faziam parte do meu universo e, até mesmo, aquele clima quentinho e de brisa fresca, típico da serra da Piedade, que percorria a casa, sempre no final do dia.

Afinal, eu jamais imaginaria abandonar o que quer fosse e que me fazia tão absolutamente feliz!
Eu jamais imaginaria que a gente pudesse vir a mudar, e o quê dizer de “mudar de casa.”?

Não! Impossível! Casa, para mim, era sinônimo de um teto eterno.

Era nossa identidade maior!

Nascíamos com ela, para sempre.

Mesmo acreditando assim, no dia a dia, a programação da família foi, aos poucos, embalando o meu destino...

Tudo pronto, quatro horas da manhã, mamãe, Elvira, Edila e eu embarcamos, na maior expectativa e alegria de vida, na Companhia Real, rumo aos 1500Kms que nos esperavam de estrada.

Mas, de surpresa, logo na esquina da Praça 28 de setembro, houve uma parada inesperada na viagem: Tia Pequita, contrariando a promessa de não haver despedidas, apareceu, entregou este lindo quadro pintado por uma prima e um lencinho, todo barrado em richelieu e, no centro, bordado por ela, a palavra saudade. Triste, nos deu seu discreto beijo.

Todos nós nos emocionamos baixinho ... e, neste momento, eu conheci a primeira decepção da minha vida: a infância, logo ela, o meu maior patrimônio, havia ficado para trás.

Era fevereiro de 1963, Rio Branco permaneceu quietinha, naquela madrugada de verão.

Publicada no blog "Maria Cobogó" em 31.5.2021 - https://mariacobogo.com.br/a-mudanca/

Publicado no Jornal da ANE (Associação Nacional de Escritores), Edição n. 88, de setembro de 2018. https://anenet.com.br/wp-content/uploads/2018/09/Jornal_ANE_88_final_impressao.pdf